O quarto estava escuro e cheirava mal.
Ouvia-se demasiado o barulho da chuva, talvez, devido ao estado de degradação da casa.
Apesar do frio, os restos espalhados pela cozinha e pela sala, exalavam um odor execrável. Havia porcaria por todo o lado e aqui e ali um gato se regalava com um pedaço embolorado de qualquer coisa. Muitas das janelas já não tinham vidros, as cortinas grossas abanavam ao sabor do vento deixando a luz entrar apenas por breves instantes.
Há medida que Seth abria caminho da cozinha para o corredor, ouvia barulhos de pássaros e gritava - Está alguém em casa?
O papel de parede era apenas uma mancha suja e salpicada de vermelho escuro. O padrão dos salpicos indicava-lhe que algo de horrível se tinha passado ali, mas os gatos andavam por lá como se nada os incomodasse. O cheiro era insuportável!
Estava demasiado cansado e molhado para conseguir raciocinar, depois de ter andado perdido três dias naqueles bosques, só queria uma refeição quente e dormir. Aparentemente não seria ali que iria satisfazer as suas necessidades. Não havia telefone e mesmo que houvesse, provavelmente, não iria funcionar. Nada funcionava ali.
Seth tentou aceder a luz mas não havia qualquer reacção quando ele empurrava o interruptor para cima, para baixo e para cima novamente. Seth continuava - Está alguém em casa?
Nenhuma resposta, pelo estado da casa, as únicas coisas que ali entravam nos últimos anos, eram os habitantes dos bosques circundantes e aqueles gatos. Gatos selvagens, enormes... De onde vinham eles?
As escadas para cima não estavam em muito bom estado e Seth não arriscou subir, voltando a pensar no estado da casa e no que se teria passado ali.
Voltou para trás, pegou nuns troncos e acedeu a lareira. Na altura pensou que o melhor seria secar-se e descansar ali. De manhã logo pensaria o que fazer. Começou a limpar um pequeno espaço, tentou arranjar toalhas e panos para se secar e aquecer. Estava tudo imundo.
Mas Seth estava cansado e mesmo com fome... adormeceu profundamente.
Não lhe chamaria um Diário mas mais um "Desabafário". Um registo de como são os meus dias, o que me inquieta, o que me faz chorar, o que me faz rir. Para mais tarde recordar...
Mostrar mensagens com a etiqueta [ShortStory]. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta [ShortStory]. Mostrar todas as mensagens
sábado, 19 de fevereiro de 2011
domingo, 5 de abril de 2009
[ShortStory] Eu e o Ryūjin... (parte II)
Para quem já não se lembra...
E o Ryūjin também queria vingança. Queria descobrir se tinha sido o exército do Uesugi a raptar a sua irmã e o que lhe tinham feito.
Mas as suas ausências começaram a tornar-se cada vez mais frequentes, mais longas e mais estranhas. Quando voltava não era o mesmo Ryūjin que eu conhecia.
(continua...)
Não sei porquê, a Kami nunca gostou muito do Ryūjin. Quando lhe perguntava os motivos não me sabia responder, apenas retorquía que ele não lhe inspirava confiança. Que os seus olhos escondiam qualquer coisa mas que não conseguia explicar. A Kami era única pessoa que não se deixava levar pelas histórias dele. E eu… eu sempre pensei que fossem ciúmes.
Afinal a minha irmã mais nova começava a achar que o Ryūjin era mais importante para mim do que ela.
Mas como é que ela poderia pensar isso?Afinal a minha irmã mais nova começava a achar que o Ryūjin era mais importante para mim do que ela.
A nossa família sempre foi o pilar das nossas vidas e quando se desmoronou ela era a única com quem eu podia contar. Sempre.
Mas, também, não compreendia como ela podia não confiar no Ryūjin, a única pessoa que alguma vez me fez sorrir depois do ataque do Uesugi. Era ele que me dava forças para continuar e era por eles que às vezes pensava que devia por de parte os meus planos de vingança. Mas apenas por breves instantes, afinal destruíram as nossas vidas, as nossas terras, a nossa família.
E o Ryūjin também queria vingança. Queria descobrir se tinha sido o exército do Uesugi a raptar a sua irmã e o que lhe tinham feito.
Por isso desde o dia em que conheci o rapaz com os olhos mais bonitos de todo o reino que não temos deixado de fazer planos… planos sobre a vingança, planos sobre como vamos fazer o Uesugi sofrer.
A minha sede de vingança levava-me à manipulação, conseguia convencer tudo e todos com o meu discurso metódico de que faço isto pelas nossas Terras e não pela vingança, pelos seus filhos e não porque vou ter um gosto sórdido em ver arder o homem que mandou destruir a minha família e o meu templo.
Até a pessoa mais ponderada do clã me dava forças, Yamato concordou em treinar-me durante o tempo que fosse necessário, até que eu conseguisse bater-me com o Uesugi de igual para igual.
Todos sabíamos que seria uma luta injusta, todos já tinham ouvido as histórias de como era impossível matar o Uesugi, pois antes era preciso matar o seu dragão e segundo reza a lenda esse é imortal.
Todos sabíamos que seria uma luta injusta, todos já tinham ouvido as histórias de como era impossível matar o Uesugi, pois antes era preciso matar o seu dragão e segundo reza a lenda esse é imortal.
Com a ajuda de Yamato, Kami e Ryūjin fui liderando o clã, sem nunca descurar as seis horas de treino diário a que obrigava Yamato. Faça chuva, neve, sol, esteja doente ou sem forças nunca nestes anos falhámos um dia de treino.
A minha espada! Quem ma entregou foi Yamato, o nosso tutor. Foi ele que me ensinou a lutar. Foi ele que me ensinou a empunhar uma espada, foi ele que me ensinou a usar toda a minha energia em combate. Foi ele que me ensinou a amar a minha espada, a senti-la como se fosse uma parte de mim. E se eu o consigo, já nem o meu pai me vencia com a espada. Quando empunho a espada ganho uma nova vida, parece que me transformo. Eu e a espada, pertencemos uma à outra. E como eu gosto de lutar, como eu gosto de vencer.
Durante anos, eu e o Ryūjin fomos inseparáveis. Estávamos sempre juntos, ele ajudava-me em tudo o que era preciso. Trabalhava nas terras, ajudava-me nos discursos, nas compras, nas negociações com os outros senhores. Lutava comigo, limpava-me as feridas e acima de tudo amava-me. Dava-me um amor que eu nunca tinha tido. Não aquele amor fraternal que o meu pai e o Yamato sempre me deram. Mas o tipo de amor que uma princesa adulta precisa.
E durante anos o Uesugi deu-nos descanso, aparentemente as terras deixaram de lhe interessar desde que assassinou o meu pai. Poder-se-ia dizer que a minha vida era quase perfeita. Não fosse a sede de vingança que me atrofiava o coração, não fosse não termos notícias da irmã do Ryūjin, não fossem as saudades dos meus pais.
A minha irmã cresceu e acabou por se habituar à ideia de ter o Ryūjin por perto. Quando decidiu ir estudar para Kyoto não consegui dizer-lhe que não. Claro que tinha medo, tinha medo do que lhe pudesse acontecer, tinha medo que ela nunca mais voltasse, mas se era o que ela queria tinha de a apoiar nessa decisão.
Tratei de todos os preparativos, arranjei uma casa nobre onde lhe pudessem dar a melhor educação e mandei com ela a sua serva predilecta.Nesta altura, comecei a sentir-me cada vez mais sozinha. O Ryūjin desaparecia durante dias, nunca dando uma explicação credível sobre onde tinha estado, apenas me conseguia dizer que tinha ido atrás de uma nova pista sobre a sua irmã. Tantas vezes pensei em dizer-lhe que, ao fim de tantos anos, o mais certo era a sua irmã estar morta. Mas nunca me atrevi. Ele era movido pela mesma raiva que eu, não quero imaginar qual seria a reacção dele se proferisse tais palavras.
Mas as suas ausências começaram a tornar-se cada vez mais frequentes, mais longas e mais estranhas. Quando voltava não era o mesmo Ryūjin que eu conhecia.
(continua...)
quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009
[ShortStory] Eu e o Ryūjin...
Alguns anos depois disto...
Não via nada... Tinha calor e arrepios... Sentia frio e tremia.
Só sentia aquele odor imundo, tresandava. Tudo tresandava... E eu pensava... Como vim aqui parar?
Como me deixei arrastar para esta escuridão?
Onde estou? Quem sou eu? O que sou? No que me tornei?
Como deixei que me fizessem isto? Como deixei que me transformassem neste monstro?
A cabra fria e implacável que lhes arrancava o coração enquanto eles imploravam por perdão.
Mas que perdão? Não há perdão possível.
São eles, ou eu. Matar ou morrer. Como me podem pedir para escolher?
Não consigo, não aguento mais...
Será que eles não vêem que eu não penso. Eu não vejo. Eu não vivo. Eu só quero vingança.
Só me quero vingar de quem mos tirou, de quem mos levou. Que direito tinham eles? Quem os deixou? Quem lhes deu autorização? QUUUEEEEEEEM????
Não permito que isto me aconteça... Não permito que eles continuem as suas vidinhas. Aquelas vidinhas miseráveis. A rirem-se e darem festas, como se não estivéssemos em guerra. O que festejam eles? Quem é que eles pensam que são? QUUUEEEEEEEM????
Ainda neste estado delirante, com todas estas palavras a ecoarem na minha mente, vi alguma agitação parecia que chegava alguém a cavalo.
Foi então que vi. O rapaz mais bonito que alguma vez vira, por instantes consegui esquecer-me da jura de vingança. Só me interessavam os seus olhos. Tão bonitos.
Ainda hoje não consigo descrever o que senti quando os nossos olhares se cruzaram pela primeira vez. Fui fulminada por um raio. Senti-me nas nuvens, fiquei envergonhada, corei e soube que nunca mais nos iríamos separar. Se eu acreditasse no amor à primeira vista diria que era isto. Eu e Ryūjin nunca mais nos separámos...até aquele fatídico dia da gruta...
Ouvi-o contar que procurava a sua irmã que houvera sido raptada, como tinha fugido dos homens do Uesugi, como quase tinha sido morto. O entusiasmo com que ele contava aquelas aventuras, os gestos que fazia, as suas caras, fazia-nos mesmo acreditar nelas...
Ah Eu e o Ryūjin...
(continua...)
**SPOILER ALERT** Quem ainda não jogou Heavenly Sword e tenciona jogar poderá não querer ver este video.
Não via nada... Tinha calor e arrepios... Sentia frio e tremia.
Só sentia aquele odor imundo, tresandava. Tudo tresandava... E eu pensava... Como vim aqui parar?
Como me deixei arrastar para esta escuridão?
Onde estou? Quem sou eu? O que sou? No que me tornei?
Como deixei que me fizessem isto? Como deixei que me transformassem neste monstro?
A cabra fria e implacável que lhes arrancava o coração enquanto eles imploravam por perdão.
Mas que perdão? Não há perdão possível.
São eles, ou eu. Matar ou morrer. Como me podem pedir para escolher?
Não consigo, não aguento mais...
Será que eles não vêem que eu não penso. Eu não vejo. Eu não vivo. Eu só quero vingança.
Só me quero vingar de quem mos tirou, de quem mos levou. Que direito tinham eles? Quem os deixou? Quem lhes deu autorização? QUUUEEEEEEEM????
Não permito que isto me aconteça... Não permito que eles continuem as suas vidinhas. Aquelas vidinhas miseráveis. A rirem-se e darem festas, como se não estivéssemos em guerra. O que festejam eles? Quem é que eles pensam que são? QUUUEEEEEEEM????
Ainda neste estado delirante, com todas estas palavras a ecoarem na minha mente, vi alguma agitação parecia que chegava alguém a cavalo.
Foi então que vi. O rapaz mais bonito que alguma vez vira, por instantes consegui esquecer-me da jura de vingança. Só me interessavam os seus olhos. Tão bonitos.
Ainda hoje não consigo descrever o que senti quando os nossos olhares se cruzaram pela primeira vez. Fui fulminada por um raio. Senti-me nas nuvens, fiquei envergonhada, corei e soube que nunca mais nos iríamos separar. Se eu acreditasse no amor à primeira vista diria que era isto. Eu e Ryūjin nunca mais nos separámos...até aquele fatídico dia da gruta...
Ouvi-o contar que procurava a sua irmã que houvera sido raptada, como tinha fugido dos homens do Uesugi, como quase tinha sido morto. O entusiasmo com que ele contava aquelas aventuras, os gestos que fazia, as suas caras, fazia-nos mesmo acreditar nelas...
Ah Eu e o Ryūjin...
(continua...)
**SPOILER ALERT** Quem ainda não jogou Heavenly Sword e tenciona jogar poderá não querer ver este video.
Subscrever:
Mensagens (Atom)